Estudo do HAC avalia necessidade de uso preventivo
de medicamento imunobiológico pós-transplante
8 de janeiro de 2026

Um trabalho científico recentemente publicado por colaboradores do Hospital Amaral Carvalho (HAC) traz contribuições relevantes para o manejo da reativação do vírus Epstein-Barr (EBV) em pacientes submetidos ao transplante de células hematopoiéticas (TMO). Intitulado “Rituximab preventivo para reativação do Vírus Epstein-Barr após transplante de células hematopoiéticas: necessário para todos?”, o estudo avalia se o uso preventivo do medicamento é realmente indispensável em todos os casos. O trabalho foi publicado na Transplant Infectious Diseases, revista internacional especializada em artigos sobre infecções em transplantes.
A história do estudo teve início em 2009, a partir de um projeto do Serviço de Transplante de Medula Óssea (TMO) do HAC, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). O projeto possibilitou a implantação da técnica de PCR quantitativo para vigilância do EBV em receptores de TMO, permitindo o acompanhamento sistemático da carga viral no período pós-transplante.
“Durante dois anos, o projeto custeou essa vigilância e conseguimos analisar o impacto do diagnóstico precoce no manejo das complicações relacionadas ao EBV”, explica a médica infectologista Clarisse Martins Machado, mentora do projeto. Após o encerramento do financiamento, o próprio Hospital Amaral Carvalho assumiu os custos da vigilância, o que possibilitou uma compreensão ainda mais aprofundada da dinâmica do vírus nesses pacientes.
Resultados que desafiam recomendações internacionais
Uma das complicações mais temidas associadas à reativação do EBV é a Doença Linfoproliferativa Pós-Transplante (DLPT), uma condição rara, porém grave, caracterizada pela transformação tumoral induzida pelo vírus. O tratamento da DLPT é feito com o rituximab, anticorpo monoclonal que, no Brasil, está disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para algumas indicações, mas não de forma preventiva para essa condição.
Enquanto diretrizes internacionais recomendam o uso precoce do rituximab quando o EBV é detectado no sangue de pacientes considerados de alto risco, os dados do HAC mostraram um cenário diferente. “Nosso estudo demonstrou que a simples redução da imunossupressão foi suficiente para controlar mais de 90% dos episódios de reativação do EBV. O rituximab foi necessário em menos de 7% dos casos”, destaca Clarisse.
Segurança do paciente como prioridade
O uso do rituximab não é isento de riscos. Um dos principais efeitos adversos é o atraso na reconstituição imunológica, o que aumenta a suscetibilidade a infecções e prejudica a resposta a vacinas. Esse risco ganhou ainda mais relevância durante a pandemia de COVID-19: a maioria dos pacientes hematológicos que evoluíram a óbito por covid havia sido tratada com rituximab, conforme relembra a infectologista.
A partir da análise dos dados, a equipe identificou que o maior risco estava associado a um aumento súbito da carga viral — de um log ou mais em um intervalo de uma semana. Com isso, foi possível estabelecer uma estratégia mais segura e personalizada: intensificar o seguimento com PCR quantitativo de EBV, reduzir a imunossupressão diante desse aumento abrupto e reservar o uso do rituximab apenas para os casos que não respondessem a essa conduta inicial.

de células hematopoiéticas, publicado na revista Transplant Infectious Diseases
Medicina translacional e trabalho em equipe
O estudo também evidencia a importância da integração entre laboratório e assistência clínica. A equipe da citoquímica, responsável pela realização do PCR quantitativo de EBV, teve papel fundamental, garantindo excelência técnica e alta reprodutibilidade dos resultados. Da mesma forma, a equipe médica atuou de maneira ágil frente aos alertas de aumento da carga viral. O trabalho contou ainda com o apoio do gerente de dados, responsável pelas análises estatísticas.
“É um verdadeiro trabalho de medicina translacional, em que o laboratório e a equipe médica caminham juntos, sempre com foco na segurança do paciente”, conclui Clarisse. “Tenho muito orgulho de ser a mentora desse projeto e de integrar essa equipe maravilhosa do TMO do Hospital Amaral Carvalho.”
Assinaram o trabalho os profissionais Clarisse Martins Machado, Anna Beatriz Coelho de Souza, Anderson João Simione, Ana Cláudia Ferrari dos Santos, Iago Colturato, Fernanda Rodrigues Barbieri, Juliana Ribeiro do Prado Moreno, Lilian Perílio Zanetti, Leila Cibele Serra de Oliveira, Erika Rodrigues Pontes Delattre, Juliana Silva Santos, Mair Pedro de Souza e Vergílio A. R. Colturato — todos integrantes do Hospital Amaral Carvalho.

