Amizade que nasceu da solidariedade: doador e paciente se tornam amigos após transplante de medula
17 de julho de 2026
Há amizades que parecem improváveis. Pessoas de cidades diferentes, com histórias completamente distintas e que talvez nunca se encontrassem. Mas, um único gesto é suficiente para aproximar dois desconhecidos e criar um vínculo para a vida toda.
No Dia do Amigo, que será celebrado em 20 de julho, a história de uma amizade que nasceu a partir de uma das maiores demonstrações de solidariedade: a doação de medula óssea.
Foi exatamente isso que aconteceu com Neylor Chagas e Tharsis Paiva. Em 2023, Neylor recebeu o diagnóstico de leucemia mieloide aguda e a rotina se resumia ao quarto do hospital, exames e tratamentos. “Na última internação, foram mais de 40 dias. Você vê a vida acontecendo lá fora, mas está parado”, comenta. O transplante de medula óssea, nesse caso, representaria a chance de uma vida nova.
O transplante foi realizado no dia 30 de junho de 2023. Onze dias depois, veio a notícia tão aguardada: a medula havia “pegado”, sinal de que o organismo estava respondendo favoravelmente ao procedimento. “A gente ganha uma outra chance. Passa a dar mais valor à vida”, afirma.
Depois do procedimento, doador e receptor permaneceram anônimos, como prevê o protocolo. O contato entre eles só pode acontecer após o período determinado de um ano e meio pelas normas do Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome) e depende da vontade de ambos. Assim que foi permitido, Neylor enviou uma mensagem por meio do Redome, manifestando o desejo de conhecer a pessoa que havia lhe dado uma nova oportunidade. Do outro lado, o interesse era o mesmo. Foi assim que conheceu Tharsis, o homem que se tornou seu doador de medula óssea. E se tornaram amigos, da forma mais inusitada possível.
Tharsis chegou a se hospedar na casa da família, compartilhando histórias, refeições e momentos que pareciam pertencer a amigos de longa data. Depois, os dois viajaram juntos para Ilhabela, fortalecendo ainda mais o vínculo criado a partir de um gesto de solidariedade. “Ele é uma pessoa diferenciada, bondosa. Quem faz isso tem uma generosidade enorme e dá valor ao ser humano”, diz o paciente.
O doador diz ser agradecido pela oportunidade de conhecer o amigo e fazer a diferença na vida dele. “Ter conhecido o Neylor foi um bônus. Um gêmeo genético que pude participar da sua vida. E ver que a sua recuperação foi um sucesso, me dá muito orgulho da escolha de querer ser doador de sangue desde novo e me cadastrar no Redome. Assim, ganhei um irmão de sangue e sou muito feliz de fazer parte da vida dele”.
Cadastro
Histórias como a de Neylor e Tharsis mostram que a doação de medula óssea pode transformar completamente a vida de alguém. Muitas pessoas que enfrentam doenças hematológicas dependem de um doador para ter uma nova chance.
Segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO) divulgado no ano passado, mais de 2.600 pessoas aguardam na fila pelo transplante no País. A busca pelo doador começa, geralmente, dentro da própria família. Quando não há um doador aparentado, o Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome) conecta pessoas dispostas a doar a pacientes que precisam do transplante, aumentando as chances de encontrar uma compatibilidade.
Para ser um doador, é necessário ter entre 18 e 35 anos e realizar um cadastro num hemocentro ou hemonúcleo e manter os dados atualizados. Quando há compatibilidade, o gesto de solidariedade pode representar a esperança para um paciente que aguarda por um transplante.
“Posso dizer que o ato de se cadastrar para ser doador do Redome é tão simples e capaz de trazer um impacto tão grande para quem está doente e seus familiares. Muitos dizem ser receosos da doação por ser doloroso, mas no meu caso posso garantir que não foi nada disso. Foi um procedimento tranquilo e indolor”, conclui Tharsis.
Embora o transplante de Neylor tenha sido realizado em Belo Horizonte (MG), a coleta da medula doada por Tharsis foi realizada no Hospital Amaral Carvalho, em Jaú. Após o procedimento, o material foi encaminhado ao hospital onde o paciente realizou o transplante. O Hospital Amaral Carvalho é o maior centro de Transplante de Medula Óssea (TMO) do Brasil. Referência internacional, atende cerca de 90% de seus pacientes pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e já realizou mais de 4,8 mil procedimentos desse tipo.
No caso de Neylor, uma pessoa que ele nunca havia encontrado tornou possível um recomeço. E, anos depois, essa mesma história ganhou um novo capítulo: uma amizade construída a partir da vida.
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