24/9/2016 - Após levar neta a hospital de câncer, avô decide fazer perucas para doação

Desde que precisou levar a neta para uma consulta ao Hospital do Grupo de Pesquisa e Assistência ao Câncer Infantil (Gpaci), em Sorocaba (SP), o morador de Boituva (SP) Benedito Oliveira, de 59 anos, decidiu iniciar um projeto que mudou a própria vida, a dos familiares e de muitos pacientes com câncer: fazer perucas. Há dois anos ele confecciona perucas em um cômodo nos fundos de sua casa e as doa para o Gpaci e também para o Hospital Amaral Carvalho, em Jaú (SP).

 “É comovente lembrar daquele dia. Levamos a Lorena, na época com dois anos, para fazer uma consulta, que revelou um nódulo benigno no supercílio e que foi retirado no mesmo ano. Fazia muito calor e vi aquelas crianças, meninas com cerca de 13, 14 anos, todas com toucas na cabeça. Me senti tão pequeno naquela hora que vi as crianças carecas e decidi ajudar fazendo perucas”, afirma.

Segundo Oliveira, ele procurou uma assistente social e fez um curso com sua esposa para aprender a confeccionar perucas. Ele, que trabalhava de consultor de obras e hoje vive com a renda de aluguéis, afirma que no início foi difícil aprender.

“Eu não sabia nada sobre perucas. Procurei a assistente social e, então, fiz um curso com a minha esposa para aprender. Quando começamos, montávamos a peruca devagar. Era difícil, isso porque nós nunca tínhamos feito algo parecido. Agora temos prática. E não só eu e a minha esposa fazemos as perucas. Mais pessoas começaram a ajudar. Tem os filhos, netos, vizinhos e parentes. Gente que tira uma horinha do seu dia para ajudar”, conta.

Confecção
Os cabelos que são transformados em perucas são recebidos dos próprios hospitais, diz Oliveira. “Os hospitais recebem mechas de cabelo e repassam para gente como nós, que produzem as perucas. Além de mim, tem muitas outras pessoas que fazem esse trabalho. Eles dependem de voluntários porque cada peruca, as menores, custam em média R$ 500. Então, imagina o custo que ficaria ao dar para todos os pacientes”, explica.

 Depois que as mechas são recebidas, Oliveira e a família as separam e as higienizam. “Em seguida, elas vão para uma máquina de tecer. Depois colocamos as mechas nas toucas com equipamento próprio. As máquinas nós já tínhamos, porque minha esposa é costureira e faz enxovais. Mas as toucas são compradas com nosso dinheiro. Hoje fazemos até 12 perucas por semana. Não conseguimos atender todas as pessoas que precisam, mas já é uma ajuda”, afirma.

De acordo com Oliveira, no Gpaci os beneficiados são crianças e adolescentes, enquanto em Jaú a grande maioria é de mulheres. “Nesse tempo todo acho que só entregamos para dois homens. Mas percebo que a mulher adulta parece sentir mais a perda do cabelo. A autoestima dela é mais afetada do que uma criança, me parece. Quando a paciente lida com a doença e também com a autoestima muito baixa é fácil para ela acabar enfrentando uma depressão, o que só piora a recuperação. Isso porque a mulher pode estar bonita, formosa e de repente sentir-se desfazendo”, comenta.

‘Luta contra a doença’
Para o morador, a produção e doação de perucas para pacientes que nunca viu na vida é uma forma de lutar contra a doença. “Perdi um cunhado aos 23 anos por câncer no abdômen e um irmão aos 38 por um câncer na garganta. Eu sei que, a partir do momento em que a pessoa coloca a peruca na cabeça, ela ganha mais ânimo para tomar remédio, para comer, caminhar, socializar com as outras pessoas. Ela perde a vergonha. E isso, junto com acompanhamento psicológico, aumenta muito as chances de cura. São pesquisas dos próprios hospitais que dizem isso. Então, as perucas que fazemos é uma tentativa de diminuir o poder do câncer”, reflete.

Na próxima quarta-feira (28) perucas serão entregues para os pacientes do hospital Amaral Carvalho, em Jaú. De acordo com Oliveira, a entrega é um momento que o emociona. “Sou muito emotivo. Se eu vejo a pessoa feliz ou até chorando ao ganhar uma peruca eu já começo a chorar. Esses momentos de entrega são muito emocionantes para a gente que está doando. Então, eu evito um contato próximo com os pacientes que recebem por conta disso e entrego para as assistentes.”

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Fonte: Portal G1

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